Nao, nao se trata, ao pe da letra, de um blog de viagens. Me destino ao bom estrangeiro, ao que nao se limita ao guia de turismo e, em vez disso, vai atras, na cidade nova, de novas cores, novos sabores, novos lugares. O ponto eh se aproximar do nativo. Fortaleza, Sao Paulo e Salvador aqui descritos, acima de tudo, em experiencias. Afinal, a vida eh boa.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Interlocucoes musicais #1: She made me cry, Pholhas
Meu bem, voce tem que acreditar em mim, já dizia o Rei Roberto. Confesso, de testemunha somente a cachaça Pitu, doce como um suspiro de moça no cangote em beira de praia, alem da noite de sábado, daquelas que, de tão bonitas, poderiam durar uma vida inteira. Mas não dê ouvidos à maldade alheia
e creia, tao somente creia.
e creia, tao somente creia.
Estava eu, numa de minhas idas a Fortaleza, a melhor cidade do mundo, fechador de bar ao acaso, rua 24 de maio, praça Jose de Alencar. Na tv 14 polegadas, ao lado das estampas Chave de Ouro, rodava um dvd da banda Calypso, ja sem volume. Ventilador no teto, luz branca de boteco, portao ao meio.
Cotovelo esquerdo no balcão, mão direita no copo, me senta ao lado um típico papudim. Passaria fácil por qualquer morador do Pirambu, em Fortaleza, da Batateira no Crato, de Parelheiros em S Paulo. Era moreno, cabelos crespos e sujos, levemente acizentados de tao sujos, lábios ligeiramente feridos, e trazia o cheiro inconfundível do fim de semana.
Olhou para mim e o cumprimentei com a cabeça.
Notei que estava triste, demasiado triste, daquelas tristezas apenas transmitidas quando ha consonância entre dois animais de mesmo teor etílico. Senti que havia balbuciado algo. Estava ébrio, decerto, mas ainda a um nível que permitisse o perfeito entendimento das coisas. Perguntei-lhe o que dissera, nao respondeu.
Silencio.
Chamou o dono do bar, pediu cerveja, no que notei um sotaque estrangeiro. Ingles? Sim, admito o espanto. Puxei conversa, falei qualquer coisa da cidade. Nisso ele me olha e simplesmente desata a me contar a mais triste historia de amor que jamais ouvi:
Let me tell my whole story
I had some time ago
She was a pretty little girl
Nao duvidei ter caido alguma lagrima. Ousei perguntar que mulher seria aquela, que veio como um tsunami derrubar o que havia de dignidade. Nao me faltou compaixão.
She was my wife, I was so glad
Longo suspiro, na verdade uma pausa, como se a frase, de tão envergonhada, retirasse a ultima oração. Suas mãos tremiam de leve. Buscou meu ombro, clássica pose de dois companheiros de bar. Deixei-lhe prosseguir:
My happiness finished so fast, my
She broke my heart and told me
She didn't love me no more
Não pude deixar de interromper. Já fui amado, já amei, já não amei, já deixei de amar e ser amado. Tive o cuidado de escolher com pinça as palavras. Aos anjos de asa partida e dor, e eu bem já o fui, não se deve questionar a razão do golpe. Teme-se, pois, a pior das respostas: que não havia razão. Levantei a bola, diga-se, num dialogo já cantado. Quis saber como andava sua vida, agora sem a amada, e se não havia esperança de uma volta à lagoa azul. Ele respondeu:
Then today I am alone
I spend my time, spend my time
Sweeping the floor
The dust goes, my mind flies
Não alcancei o lirismo da ultima frase. De qualquer forma, sua solidão me comoveu. A palavra ALONE, alias, de natureza já temida, ficara ainda maior naquela noite, e seu eco invadia o bar, toda a 24 de maio, da Castro e Silva até a Duque de Caxias, e tal palavra foi-se embora em neon vermelho, quicando e multiplicando, ALONE em cada braço de puta da Praça, dobrando a quina do mar, ALONE nas testas dos taxistas da Praia de Iracema, nas saias curtinhas das meninas exploradas em volta da Ponte, ALONE na camiseta branca do turista sexual, ALONE por toda a orla, invadindo os barcos do Mucuripe, ALONE estampada na gigantesca muralha do Moinho Dias Branco,ali do lado da imensa bandeira do Brasil beijada pela brisa alencarina, que naquela noite adicionaria o vermelho às cores nacionais, ALONE se expandindo até ser vista por um astronauta em cima de toda a cidade banhada pelo neon vermelho. Pra minha sorte, ele teve forças pra continuar:
The time goes by and I know
I'll find another girl
But I still remember
She made me cry!
Dito isso, terminou sua cerveja, deixou uma nota, tocou duas vezes no meu ombro, envergou as costas para passar pelo portão, e desapareceu, tão soturno quanto surgiu. Foi então que baixei os olhos e vi ali ao meu lado um viralatas chorar copiosamente.
I'll find another girl
But I still remember
She made me cry!
Dito isso, terminou sua cerveja, deixou uma nota, tocou duas vezes no meu ombro, envergou as costas para passar pelo portão, e desapareceu, tão soturno quanto surgiu. Foi então que baixei os olhos e vi ali ao meu lado um viralatas chorar copiosamente.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Salvador, Ribeira
Não, eu não conheço Salvador. Somadas todas as horas em que estive na capital baiana, não chegam a três dias inteiros. Boa parte do que fiz, mesmo quase sempre acompanhado de uma boa nativa (e quem não há de considerar o nativo o melhor dos guias), não foi nada além de um roteirizado tour soteropolitano: a Igreja do Bonfim, o Elevador Lacerda, o Pelourinho, o Farol da Barra. Tour amoroso, em tempo. Afinal, nem o melhor pacote CVC superaria aquele fim de semana com aquela baiana, aquele sotaque que te desarma, veja, nego, é aqui que acaba o carnaval. Pensar que o carnaval mal começou...
Não, tampouco conheço a Ribeira, bairro que beija o mar, cidade baixa.
Por duas vezes passeei pela Ribeira. Na primeira, cruzamos de carro a avenida Beira Mar, estreita, apinhada de gente, a rua espremida entre as casas e a faixa de areia. Era sábado, era sol, era todo mundo preto, preto ciclista, preto banhista, preto motorista, preto tostado do sal da baía, se divertindo no seu compromisso com o prazer, do meu lado, do meu lado me conduzia uma preta, semipreta que não se diz preta, cor de guaraná, o som que vinha, o som que vinha era preto, sim, meu amor, a gente vai invadir a boate. Acho que Deus ficou com preguiça de me fazer preto e de preto só me deixou os lábios e o coração.
Na segunda visita, noite de domingo, a gente tava comendo um pastel do lado da famosa sorveteria, quem é de Salvador sabe, ou pelo menos, pelo que me disseram, devia saber. Dessa vez se apossaram os barcos adormecidos, o pretume do mar, o barulho do mar, a maresia vindo açoitar nossas narinas, como um convite a se perder naquele mar baiano. Eu não queria me despedir de tanto mar, eu queria que o mar me abraçasse, me envolvesse, me embalasse até que eu dormisse, que o mar velasse meu sono, me protegesse de São Paulo, eu não queria ir pra São Paulo, eu queria ficar contigo, muito branca, viu, você.
Tudo que tenho da Ribeira são sensações. Sabe aquela mulher que você conheceu e beijou, muito linda, e que na manhã seguinte você, afoito, já imagina o convívio, será que ela gosta de Caetano, pés descalços no chão frio, leite condensado, vestidinho azul? Sim, amizade, foi assim meio parecido que na manhã de segunda, já no friozinho do Butantã, pensei mil vezes, entre um sono e outro, se aquele bairro também teria se apaixonado por mim.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A cobradora
Hoje à tarde atravessava a Paulista num busão linha Vila Gomes, depois de uma aula particular na Bela Vista. Eram perto de 5h da tarde, horário em que o trânsito na avenida já beirava o caótico-normal de todo dia, mas nem ligava, ainda recolhido dentro de mim mesmo pela serenidade que me tomou há alguns dias. O tempo, nesses dias, tem estado bravo comigo, haja vista não tenha lhe dado a importância à qual ele já se habituou.
No onibus, à minha esquerda, uma mulher desorientada, provavelmente sem saber nada de São Paulo, pergunta à cobradora sobre como ir ao Conjunto Nacional. Nisso a camaradagem do paulistano (algo impensável para quem não conhece São Paulo e associa o morador da cidade ao extremo individualista), revelada na cobradora e em dois ou tres passageiros, informa à moça de como ela deve proceder para que chegue ao seu fim.
Foi nesse ponto que a notei, a cobradora, personagem principal dessa pequena história. Era morena, penso que alta, com os olhos que pastoram uma infância adormecida, uma infância paulistana, talvez, nos anos 80, numa travessa da Santo Amaro, entre o frio e o bolinho de chuva. Era bonita a cobradora.
Passando em frente ao MASP, a mulher havia notado várias cadeiras devidamente perfiladas no vão do museu, todo ele um marco arquitetonico da capital paulista. Ao passageiro sentado sozinho à minha frente, disse que talvez haveria um show essa noite. O passageiro garantiu que não, que na verdade ali iria haver a exibiçao de um filme, às 7h30 da noite, é uma espécie de cinemao ao ar livre, em plena Avenida Paulista.
Pude extrair entao o que naquele momento me pareceu belo: o olhar da cobradora para o cinema improvisado parecia suplicar um momentinho de folga, que fosse, para estar ali. Aquele olhar, eu o reconheci pelo meu, escaneando as vitrines das lojas de brinquedos, nos anos 90, no centro de Fortaleza, a mao esquerda acompanhada, ou mesmo a vontade de continuar o banho de açude, ainda tá cedo, ainda tá longe de escurecer.
À mulher, o de menos o filme, o roteiro, os atores, o de menos, desde que estivesse sentada em uma daquelas cadeiras a encarar aquela tela de prata. “7h30?”, perguntou ao passageiro, como a fazer contas a fim de saber se dava tempo, numa quase promíscua autoenganação. Sim, ela queria ir ao cinema.
“Sim, 7h30. Tá tendo a Mostra de Cinema de São Paulo, duas semanas, mais de trezentos filmes, acaba hoje. Aí no MASP tem que pagar pra entrar, ainda por cima. Você mal ouve o filme e ainda paga.” Nessa hora tive vontade de pedir a palavra e dizer que não, tia, no MASP é de graça, a senhora pode ir, paga nada não, eu tenho o guia aqui se a senhora quiser ver, olha aqui. Aproveita e leva seu filho, pode ser que ele goste, vai ter um filme de faroeste, massa pra caramba. E dá pra ouvir bem sim! Eu já vi um filme aí, um filme muito bom, só com músicas dos Beatles. Vai que a senhora vai gostar.
Não, provavelmente ela não foi. Ainda voltou a cabeça pra esquerda, o mesmo olhar de mim menino, a última visão do lugar a se dissolver no meio da avenida.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
A vida eh boa, Sizenando.
A vida nao eh triste nao, Sizenando, Sinezando, me perdoe nao lembrar de todo seu nome. A vida eh boa, a vida eh massa, a vida passa por tres cidades brasileiras, Salvador, Fortaleza, Sao Paulo que, sim, oferecem o que ha de melhor para que a gente toque nosso dedo no dedo da felicidade, olha ai a explosao.
Depois explico melhor. A pressa nao leva a coisas muito boas.
Depois explico melhor. A pressa nao leva a coisas muito boas.
Assinar:
Postagens (Atom)