Meu bem, voce tem que acreditar em mim, já dizia o Rei Roberto. Confesso, de testemunha somente a cachaça Pitu, doce como um suspiro de moça no cangote em beira de praia, alem da noite de sábado, daquelas que, de tão bonitas, poderiam durar uma vida inteira. Mas não dê ouvidos à maldade alheia
e creia, tao somente creia.
e creia, tao somente creia.
Estava eu, numa de minhas idas a Fortaleza, a melhor cidade do mundo, fechador de bar ao acaso, rua 24 de maio, praça Jose de Alencar. Na tv 14 polegadas, ao lado das estampas Chave de Ouro, rodava um dvd da banda Calypso, ja sem volume. Ventilador no teto, luz branca de boteco, portao ao meio.
Cotovelo esquerdo no balcão, mão direita no copo, me senta ao lado um típico papudim. Passaria fácil por qualquer morador do Pirambu, em Fortaleza, da Batateira no Crato, de Parelheiros em S Paulo. Era moreno, cabelos crespos e sujos, levemente acizentados de tao sujos, lábios ligeiramente feridos, e trazia o cheiro inconfundível do fim de semana.
Olhou para mim e o cumprimentei com a cabeça.
Notei que estava triste, demasiado triste, daquelas tristezas apenas transmitidas quando ha consonância entre dois animais de mesmo teor etílico. Senti que havia balbuciado algo. Estava ébrio, decerto, mas ainda a um nível que permitisse o perfeito entendimento das coisas. Perguntei-lhe o que dissera, nao respondeu.
Silencio.
Chamou o dono do bar, pediu cerveja, no que notei um sotaque estrangeiro. Ingles? Sim, admito o espanto. Puxei conversa, falei qualquer coisa da cidade. Nisso ele me olha e simplesmente desata a me contar a mais triste historia de amor que jamais ouvi:
Let me tell my whole story
I had some time ago
She was a pretty little girl
Nao duvidei ter caido alguma lagrima. Ousei perguntar que mulher seria aquela, que veio como um tsunami derrubar o que havia de dignidade. Nao me faltou compaixão.
She was my wife, I was so glad
Longo suspiro, na verdade uma pausa, como se a frase, de tão envergonhada, retirasse a ultima oração. Suas mãos tremiam de leve. Buscou meu ombro, clássica pose de dois companheiros de bar. Deixei-lhe prosseguir:
My happiness finished so fast, my
She broke my heart and told me
She didn't love me no more
Não pude deixar de interromper. Já fui amado, já amei, já não amei, já deixei de amar e ser amado. Tive o cuidado de escolher com pinça as palavras. Aos anjos de asa partida e dor, e eu bem já o fui, não se deve questionar a razão do golpe. Teme-se, pois, a pior das respostas: que não havia razão. Levantei a bola, diga-se, num dialogo já cantado. Quis saber como andava sua vida, agora sem a amada, e se não havia esperança de uma volta à lagoa azul. Ele respondeu:
Then today I am alone
I spend my time, spend my time
Sweeping the floor
The dust goes, my mind flies
Não alcancei o lirismo da ultima frase. De qualquer forma, sua solidão me comoveu. A palavra ALONE, alias, de natureza já temida, ficara ainda maior naquela noite, e seu eco invadia o bar, toda a 24 de maio, da Castro e Silva até a Duque de Caxias, e tal palavra foi-se embora em neon vermelho, quicando e multiplicando, ALONE em cada braço de puta da Praça, dobrando a quina do mar, ALONE nas testas dos taxistas da Praia de Iracema, nas saias curtinhas das meninas exploradas em volta da Ponte, ALONE na camiseta branca do turista sexual, ALONE por toda a orla, invadindo os barcos do Mucuripe, ALONE estampada na gigantesca muralha do Moinho Dias Branco,ali do lado da imensa bandeira do Brasil beijada pela brisa alencarina, que naquela noite adicionaria o vermelho às cores nacionais, ALONE se expandindo até ser vista por um astronauta em cima de toda a cidade banhada pelo neon vermelho. Pra minha sorte, ele teve forças pra continuar:
The time goes by and I know
I'll find another girl
But I still remember
She made me cry!
Dito isso, terminou sua cerveja, deixou uma nota, tocou duas vezes no meu ombro, envergou as costas para passar pelo portão, e desapareceu, tão soturno quanto surgiu. Foi então que baixei os olhos e vi ali ao meu lado um viralatas chorar copiosamente.
I'll find another girl
But I still remember
She made me cry!
Dito isso, terminou sua cerveja, deixou uma nota, tocou duas vezes no meu ombro, envergou as costas para passar pelo portão, e desapareceu, tão soturno quanto surgiu. Foi então que baixei os olhos e vi ali ao meu lado um viralatas chorar copiosamente.
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