Não, eu não conheço Salvador. Somadas todas as horas em que estive na capital baiana, não chegam a três dias inteiros. Boa parte do que fiz, mesmo quase sempre acompanhado de uma boa nativa (e quem não há de considerar o nativo o melhor dos guias), não foi nada além de um roteirizado tour soteropolitano: a Igreja do Bonfim, o Elevador Lacerda, o Pelourinho, o Farol da Barra. Tour amoroso, em tempo. Afinal, nem o melhor pacote CVC superaria aquele fim de semana com aquela baiana, aquele sotaque que te desarma, veja, nego, é aqui que acaba o carnaval. Pensar que o carnaval mal começou...
Não, tampouco conheço a Ribeira, bairro que beija o mar, cidade baixa.
Por duas vezes passeei pela Ribeira. Na primeira, cruzamos de carro a avenida Beira Mar, estreita, apinhada de gente, a rua espremida entre as casas e a faixa de areia. Era sábado, era sol, era todo mundo preto, preto ciclista, preto banhista, preto motorista, preto tostado do sal da baía, se divertindo no seu compromisso com o prazer, do meu lado, do meu lado me conduzia uma preta, semipreta que não se diz preta, cor de guaraná, o som que vinha, o som que vinha era preto, sim, meu amor, a gente vai invadir a boate. Acho que Deus ficou com preguiça de me fazer preto e de preto só me deixou os lábios e o coração.
Na segunda visita, noite de domingo, a gente tava comendo um pastel do lado da famosa sorveteria, quem é de Salvador sabe, ou pelo menos, pelo que me disseram, devia saber. Dessa vez se apossaram os barcos adormecidos, o pretume do mar, o barulho do mar, a maresia vindo açoitar nossas narinas, como um convite a se perder naquele mar baiano. Eu não queria me despedir de tanto mar, eu queria que o mar me abraçasse, me envolvesse, me embalasse até que eu dormisse, que o mar velasse meu sono, me protegesse de São Paulo, eu não queria ir pra São Paulo, eu queria ficar contigo, muito branca, viu, você.
Tudo que tenho da Ribeira são sensações. Sabe aquela mulher que você conheceu e beijou, muito linda, e que na manhã seguinte você, afoito, já imagina o convívio, será que ela gosta de Caetano, pés descalços no chão frio, leite condensado, vestidinho azul? Sim, amizade, foi assim meio parecido que na manhã de segunda, já no friozinho do Butantã, pensei mil vezes, entre um sono e outro, se aquele bairro também teria se apaixonado por mim.
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